quarta-feira, 9 de maio de 2012

Libertando-se do apego...




"Espaços nos armários são fáceis de se conquistar, desde que desempenhemos com afinco e atenção a tarefa de separar tudo aquilo que já não tem uso. Mais difícil, porém, é abrir espaço na mente e no coração, quase sempre entulhados de velhas idéias e sentimentos confortavelmente conhecidos. Apegamo-nos às nossas crenças como o náufrago se agarra à sua tábua de salvação; raramente nos permitimos aprender a nadar.

Precisamos, periodicamente, fazer uma faxina em nossas vidas, de gavetas a sentimentos, de armários a relacionamentos. Ciúme não é, não foi nem será prova de amor, mas de apego. O ciumento coisifica o ser amado e coloca uma aliança na mão esquerda do cônjuge, com inscrição e tudo mais, exatamente como se coloca uma plaquinha de licença pendurada no pescoço de um animal de estimação. O símbolo da união perde todo o seu valor espiritual e se reveste do caráter de simples argola no dedo, certificado de propriedade com escritura lavrada em cartório de paz. Já vi pessoas ensaiarem os maiores chiliques se o companheiro "perde" o precioso anel. Posse não pode, nem de longe, ser relacionada a amor.

Apego é fruto da ignorância e causa sofrimento, apregoa o budismo. É doença do passado, das pessoas desesperançadas, que não conseguem abrir os olhos para o presente e não vislumbram futuro, porque "o melhor de suas vidas já passou". Se nos apegássemos somente às boas lembranças, talvez ainda valesse à pena. Mas cultivamos memórias de mágoas, dores e tristezas e as arquivamos intactas, sem retirar delas nenhum aprendizado útil. É como rever um filme triste de que já se conhece o final.

"As pessoas estão dispostas a ir para a guerra e até a renunciar à vida por uma causa, mas não podem (ou não conseguem) renunciar às causas do seu sofrimento", afirma o lama tibetano Tarthang Tulku. "Porque existem certas atitudes e preferências de que não gostamos de largar, envolvemo-nos sempre em situações difíceis e experimentamos conflitos interiores.

Às vezes renunciamos a coisas importantes - nosso dinheiro, nosso lar, nosso tempo, nossas propriedades - sem muita dificuldade. Mas os apegos emocionais - tais como o elogio e a censura, o ganho e a perda, o prazer e a dor, as palavras bondosas e as ásperas - são muito sutis. Estão além do nível físico; existem na personalidade ou na auto-imagem, e não estamos dispostos a deixá-los partir".

Conheço gente bondosa capaz de oferecer o último bocado de comida ou a própria roupa do corpo a alguém, mas que não perdoa "aquela vez que Fulano me disse aquele desaforo". Temos também certas atitudes e preconceitos, geralmente escondidos, de que não gostamos nem sequer de tomar conhecimento. Nossos apegos exercem uma influência magnética que nos retém num lugar como se estivéssemos na prisão. É difícil dizer se essa força controladora provém de nossos atos passados, do nosso medo da morte ou de alguma origem desconhecida; o fato é que não podemos nos mover - e, assim, toda a sorte de frustrações e conflitos nos ataca, criando mais frustração e mais sofrimento", conclui Tarthang Tulku.

Apego é, sem dúvida, atraso de vida. Aos que pensam que acúmulo é sinônimo de prosperidade, é importante saber que ser próspero não se relaciona ao ato de reter, mas de deixar fluir. A avareza é própria dos que acreditam que, num dado momento, alguma coisa pode faltar. Os mesquinhos não acreditam na abundância do universo; são os que enfrentam três horas na fila do gás engarrafado em tempos de greve dos petroleiros, mesmo que possuam um estoque de um ou mais botijões. Acreditam que a greve e a escassez vão durar "para sempre".

O terapeuta Wayne W. Dyer observa em seu livro Crer para Ver (Ed. Record): "Se temos alguma falta é porque estamos nutrindo pensamentos de nada e esse tipo de pensamento sempre amplia o vazio. Podemos nos expandir de maneira mais satisfatória, concentrando-nos na inteireza e compreendendo que não podemos possuir nada, jamais. Isto não exclui sentir grande prazer nas coisas que acumulamos ou das quais nos apoderamos temporariamente".

Tudo está sempre em estado de transformação, inclusive, o título que detemos de nossa propriedade, todos os nossos brinquedos, nossa família, nosso dinheiro, tudo", arremata Dyer. "Tudo em transição. Tudo circulando, caindo em nossos braços para que deles desfrutemos momentaneamente e, em seguida, lançá-los de volta à circulação. Quando internalizamos esta noção de não sermos capazes de possuir nada, ironicamente isso nos liberta para termos tudo que quisermos, sem a preocupação de possuirmos. “Logo descobrimos a alegria de passar adiante e dele compartilhar”.

Catherine Ponder, autora do best-seller Leis Dinâmicas da Prosperidade (Ed. Ibrasa), nos dá a receita da "lei do vácuo para a prosperidade". De acordo com ela, a natureza abomina o vácuo e se ocupa de preenchê-lo; se sua vida estiver entulhada, não haverá como provê-la de prosperidade. Assim sendo, "livre-se do que você não quer para dar lugar ao que você quer. Se houver roupas no seu armário, ou se houver mobília em sua casa ou em seu escritório que você acha que não servem mais; se houver pessoas de suas relações que deixaram de ser agradáveis, comece a eliminar as coisas materiais ou não de sua vida, na esperança de que poderá realmente possuir o que você quer e deseja. Muitas vezes é difícil saber o que se quer, até o momento em que nos livramos daquilo que não queremos".

Quem resiste ao fluxo da vida somatiza entulhos emocionais na forma de acne, aneurisma, arteriosclerose, artrite, artrose, cálculos, coágulos, cravos, enfisema, fibroma, hematomas, hemorróidas, obesidade, prisão de ventre, trombo-se, entre outros.

Usamos várias desculpas para justificar nossos apegos e nossa resistência às mudanças, como bem observou Louise Hay (Você Pode Curar Sua Vida, Ed. Best Seller). Adotamos atitudes que disfarçam nossa rigidez "mudando de assunto" ou ficando doentes; perdendo tempo com hipóteses ("isso não adiantaria nada"); reforçamos nossas crenças com generalizações ("isso não é direito/não sou esse tipo de gente"); adiamos decisões importantes ("mais tarde eu faço/ não tenho tempo para pensar nisso agora"); resistimos, negando a possibilidade de mudanças ("não adiantaria nada/não há nada de errado comigo"). Com isso repetimos sintomas até materializá-los sob a forma de doenças.

Desapegar nos torna criativos, abre espaço em nossas vidas para o novo e para a arte de improvisar."

Autoria:  Helena Gerenstadt

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