sexta-feira, 25 de maio de 2012

Individualidade e egoísmo... são a mesma coisa?




É especialmente comum a confusão entre individualidade e egoísmo. Porque essas coisas se misturam tanto? Como desenvolvemos nossa individualidade e nossa capacidade de nos relacionarmos intimamente? Onde aprendemos qual sentimento é feio ou bonito? Somos educados para os outros, para o social, ”diga obrigado quando receber algo de alguém - principalmente de estranhos” . Não é esquisito isso? A intimidade implica em desrespeito, então? Em desvalor?

Quantas vezes ouvimos: “Você é de casa mesmo... não tem problema... ele(a) espera”... ou aquela velha e conhecida frase: ...“primeiro as visitas”! Dificilmente nos dizem: ... “aprenda a se respeitar!”...“Seja grato ao que recebe, mas não se torne por isso, um eterno devedor” ...ou o inverso ...”doe apenas o que tem senão estará correndo o risco de se tornar um eterno credor”...“Saboreie suas vitórias valorizando também sua capacidade e seu potencial que o ajudou em suas conquistas” ...e não apenas “ofereça” os créditos aos outros, ou ao acaso... ou a eterna “sorte” . Ouvi certa vez, uma definição interessante: “sorte é o encontro do talento com a oportunidade!”, é dessa interação: eu (talento) + mundo (oportunidade) que estou falando.

Sou psicoterapeuta há mais de 10 anos e posso contar nos dedos de uma mão, o número de pessoas que conheci que foram educadas a se respeitar em primeiro lugar. E a culpa? E a dúvida... será que “isso” não é egoísmo ou falta de educação? Nascemos emocionalmente misturados com o meio, enquanto bebês nossas sensações, desejos, e percepções ainda não são sentidas como nossas, fazemos parte de um todo confuso e complexo. Fantasia e realidade ainda estão indiferenciados.

Nesse momento somos "naturalmente egoístas", não existe o outro, tudo é "eu". A nossa percepção, nossa forma de entender, sentir e encarar a realidade, nasce daquilo que aprendemos e descobrimos durante esse processo de formação da identidade, através de nossas relações. Nossas crenças, nossos valores, nossa fé nas mais diferentes coisas emergem da substância da ilusão compartilhada em parte pela humanidade e em parte pelo crivo de nossa família e das pessoas que ajudaram a construir nossa matriz de identidade.

Todas as vivências e experiências pelas quais passamos, são filtradas pelos nossos parâmetros, que influenciam o nosso olhar. Portanto não existe uma única realidade, existem inúmeras formas de entender e compreender a mesma situação. Como diz o jargão popular: “depende do ponto de vista”. A individualidade poderia ser vista como essa forma particular de sentir, perceber e decodificar o mundo que nos cerca. Para podermos exercitá-la e desenvolve-la é necessário respeito.

Estou definindo como respeito a capacidade de permitir ao outro “ser”, expressar suas particularidades, suas características genuínas, seu potencial criativo e espontâneo; trata-se da aceitação do outro como ele é. Para isso precisamos de coragem e humildade, para perceber que existem várias verdades e em diferentes ordens hierárquicas, ou seja, o que é importante para você pode ser importante para mim, não necessariamente na mesma ordem, ou pode simplesmente não ser; por se tratar de valores ou visões diferentes.

As pessoas não são feitas à "nossa imagem e semelhança", são diferentes, pois são resultado de sua própria história, e de suas singularidades. Quem te disse que o seu certo é o certo? O egoísta só se relaciona consigo mesmo, não percebe o outro, porque seu olhar está confuso, perdido na própria imagem. O auto-respeito é diferente do egoísmo. Desenvolvemos nossa capacidade de nos relacionar de forma saudável, no difícil aprendizado de assumir gradativamente a responsabilidade por nossa própria vida, por nossas escolhas e por nossas características boas ou não.

Paralelamente descobrimos a importância do outro em nosso desenvolvimento e sua influência em nosso crescimento emocional. A pessoa que respeita a própria individualidade percebe que existe independente do outro, ela é, mas ao mesmo tempo torna-se interdependente do meio, numa relação de troca, numa dança delicada e prazerosa.

Autoria: Sirley R. S. Bittú

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