sábado, 20 de agosto de 2011

Oração do pai contemporâneo...





Dai-me, Deus, a luz da Inspiração. 
Quero educar meus filhos para a ternura, a tolerância e a compreensão do próximo.

Assim tenho feito. Mas por que os ternos e os doces acabam tão raros, estranhos, quase marginais, sem chance de fazer ou criar, na dura competição da vida?

Se os educar na linha da dureza e exigência, formarei homens eficazes, atletas do saber e do fazer, padrões de êxito externo, brilho e posição. Mas os que conheço assim, sinceramente, são felizes? Como, se trocaram suas pessoas pelo papel que desempenham?

Às vezes, Pai, penso em não interferir. Deixar o que há neles de seu, de atávico, herelitário e intransferível ir ensinando.

Mas venho de um tempo em que ficou moda deixar a criança entregue a si mesma "para não frustrar". Vi esses meninos "sem frustração", crescidos, afundando-se na desagregação, berrando solidão e o "me protege, pai", "me protege, mãe" disfarçados em agressividade, autodestruição e negação sem afirmação compensatória.

Será que a educação de meus pais, aquela durona, do "não pode", "não deve", "é pecado", "eu não quero", "você vai ser igual a mim", "vai seguir minha carreira", será esta a certa? Mas quantos, Senhor, vindos dela, vi resvalar na vala da amargura, vida não vivida, revolta sem remédio?

Gostaria de só falar-lhes do amor possível, a importância do sentimento do outro, capacidade de ver e sentir o próximo,

como aprendi nos livros, com os mestres e sempre tentei, talvez sem conseguir. Não estarei, assim, porém, formando um puro, mais um otário neste mundo de rapina?

Posso acentuar-lhes o senso de justiça inato. 
Mas não estarei formando algum suicida?

Posso ensinar-lhes mil regras do bom senso, capacidade de compreender e ajustar-se. Mas ao formar "ajustados" não estarei criando apenas mais um na multidão de concordâncias cômodas?

E se os envio ao analista? Não estarei preparando especialistas em dúvidas? Gente que compreende demais, a tudo e todos e não age nunca?

Quem sabe, Pai, limito-me a passar-lhes apenas os meus valores de vida, que herdei de meus pais e os que colhi sofrendo sozinho? Valerão, num mundo que muda a cada dez anos mais do que em todos os anteriores?

Se lhes digo o que penso, invado sua liberdade. Se nada lhes falo, peco por omissão. Se discuto, acabo impondo. Se imponho, esmago. Se calo, consinto. Se consinto, acabo perdendo-os e isso não saberei suportar.

Se lhes exijo estudo, sei que vou formar quem, amanhã, pode me perguntar por que tanta ciência se a vida natural é mais saudável. Se os tiro do colégio, serei responsável por uma ignorância perigosa, amanhã.

Dai-me, Senhor, a luz de um caminho, uma honesta opção para quem, como eu, sabe do mundo, conhece-lhe as esperanças, grandezas e também as curvas da emboscada, alguém que aspira ao absoluto e aos valores nos quais,

teimoso, não deixou de crer. Sou homem aberto ao mundo e ao novo, disposto a examinar a vida sempre vendo todos os seus lados. É mais fácil escolher um dos caminhos, negando os demais.

Mas é exatamente por isso que o homem vive em guerra...

Ajudai-me, Pai, a descobrir e aceitar que 
muito ajuda quem deixa florescer, sem tanto intervir.

Autoria: Arthur da Távola

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