quarta-feira, 9 de maio de 2012

Somos aquilo que existe em nós...




Como é que eu posso sentir-me mais feliz? Andamos ansiosos à procura de qualquer coisa. Mas é má ideia. Não precisamos de encontrar nada. Já temos aquilo de que precisamos. Precisamos apenas de viver com a mesma tranquilidade dos animais e de não fazer uma distinção tão nítida entre os nossos comportamentos voluntários e involuntários. O que acontece «porque acontece» e o que resulta do exercício da nossa vontade não se distinguem tão bem como isso. Somos apenas uma das coisas que existe, uma parte do universo. E nunca estamos sós. Se entendermos bem a natureza das coisas e conseguirmos esquecer tudo o que aprendemos que tenta ir contra ela, conseguimos fazer tudo o que é possível, com o mínimo esforço.

É a esse estado de consciência, que resulta sobretudo de um questionar dos modelos formais e informais, que os orientais chamam «iluminação». Corresponde a uma sensação de «inflação», como dizia Jung, porque nos sentimos Um com o universo todo. Parece que entendemos tudo, que conseguimos tudo o que queremos. Porque no fundo aceitamos ser quem somos e tudo começa a correr «como queremos». Porque não queremos nada que não aconteça. Basta-nos o que existe.
Temos que deixar de acreditar que somos aquilo que não somos.

Somos aquilo que existe em nós. E não aquilo que julgamos que deveríamos ser. Há que questionar o senso comum. Vivemos na ilusão de que seríamos mais felizes se tudo fosse diferente do que o que é e se conseguíssemos ter tudo aquilo com que sonhamos. Mas, se tivéssemos sempre aquilo que queríamos ter, depressa nos cansaríamos. E depressa desejaríamos que acontecesse algo de que não estávamos à espera. Quereríamos que a vida fosse mais imprevisível e aventureira. Ou seja, quereríamos que a vida fosse exactamente como ela é de facto. Deixaríamos de desejar ser perfeitos como deuses e seríamos como um deus feito homem de novo. E começaríamos a amar mais a nossa condição humana e o nosso ambiente, em vez de nos queixarmos tanto deles.

O que existe - a realidade - é em si fantástica; e «ser feliz» consiste exactamente em compreender isso mesmo. Ser uma pessoa com sorte, é isso mesmo. Quando aceitamos a realidade e nos deixamos ser o que somos, mais facilmente nos acontece o que de melhor nos pode acontecer. Se vivermos tentando construir uma teia com o propósito de caçar alguma mosca dourada, podemos até conseguir o que pretendemos. Mas, depois de toda a expectativa e ansiedade da espera, sentimo-nos normalmente descontentes com a nossa presa. E com inveja das pessoas que, ao nosso lado, sem fazerem esforço nenhum, conseguiram caçar uma mosca que lhes saberá muito melhor.

Podemos passar a vida a tentar organizá-la e discipliná-la e a construir teias, cada vez mais sofisticadas e cada vez visando presas mais valiosas. Podemos tentar ser mais ricos e encontrar a mulher ou o homem ideal. Mas essa necessidade de ganhar faz-nos perder a nossa inocência. Podemos facilmente perder a oportunidade de ter a sorte de encontrar quem ou o que na realidade nos tornaria realmente felizes.

Autoria: Alan Watts

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