sexta-feira, 25 de março de 2011

Autoestima é vital para você?

 
 
 
 
Dr. Geraldo Possendoro explica quais são os principais fatores que ajudam a identificar a queda da auto estima

A AutoEstima é um fator importante para a vida de todos nós.


Qual é o meu sonho? O que eu quero ser? Como eu vou chegar lá? São perguntas assim que muitas vezes motivam o nosso acordar de manhã e pensar que vale a pena viver bem a cada dia e que daremos um passo a mais próximo do nosso sonho ou objetivo. Mas o que anda acontecendo nos tempos modernos? O que realmente nos motiva, em uma sociedade cheia de regras de comportamento que exigem que hoje tenhamos corpos esculturais, sejamos pessoas bem sucedidas no casamento e nos negócios e que nossas crianças sejam inteligentes precocemente? Como encontrar algo que realmente nos motive a viver com sinceridade e alegria para nós mesmos? Como encontrar a verdadeira satisfação em viver bem e em harmonia com familiares, amigos e também no ambiente de trabalho? A equipe do Portal Grande CAP preocupada especialmente com a qualidade de vida de seus leitores convidou o Psicoterapeuta Dr. Geraldo Possendoro a discutir temas de interesse daqueles que buscam a qualidade de vida e boa informação. Todos os meses temos a respeitada presença do Dr. Geraldo que nos ajudará a explicar quais são os principais fatores que causam os problemas do nosso dia-a-dia e como podemos obter melhor qualidade de vida, no trabalho, em família e em sociedade. Acompanhe a entrevista:

O que vem a ser exatamente a autoestima?

Não há um consenso científico acerca do que seria, exatamente, “auto-estima”. Na minha avaliação, auto-estima seria “a capacidade” que uma pessoa têm de “dar valor a si mesma”, de forma independente dos vários critérios que seu meio psicossocial (outras pessoas de seu convívio, empresa em que trabalha, escola em que estuda, etc) utiliza para lhe conferir este valor.

É possível medir a qualidade da autoestima?
Não acredito que questionários ou inventários psicológicos possam dar conta desta tarefa, até porquê há controvérsia entre os clínicos acerca do que seria exatamente a “auto-estima”. No entanto, creio que psicoterapeutas experientes são, perfeitamente, capazes de detectar problemas na auto-estima, ou seja: dificuldades da pessoa em dar valor a si mesma, o que pode trazer sofrimento e dificuldades relacionais, com perdas persistentes e reais, na vida de alguém.

Quais os tratamentos mais eficazes? Tratamentos psicoterapêuticos seria a melhor solução para recuperar a autoestima?

Não considero que possamos indicar linhas psicoterapêuticas específicas que teriam maior resultado na esfera da auto-estima. Em problemas psicológicos, como por exemplo, a Síndrome do Pânico, o Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), as Fobias ou o Stress a terapia comportamental / cognitivo-comportamental (a linha com a qual trabalho) têm os melhores resultados, segundo a literatura internacional. Nestes casos, no entanto, falamos de dificuldades psicológicas claramente definidas e reconhecidas, uniformemente, pela literatura científica internacional.

Quando falamos de problemas de auto-estima, acredito que o aspecto mais importante seja buscar um terapeuta experiente. Na minha avaliação, a utilização da linha cognitivo-comportamental, nestes casos, é bem interessante, principalmente porquê se trata de uma abordagem muito prática, que (dentre várias técnicas e características) busca os chamados “esquemas disfuncionais”, os quais, com muita frequência, apontam, claramente, para problemas de auto-estima.

Em meu trabalho, como psicoterapeuta, em muitas e muitas “primeiras sessões”, em 20 ou 30 minutos de interação, ajudo pacientes a IDENTIFICAREM problemas de auto-estima, que é um passo muito importante, na minha linha de trabalho Note: você só pode mudar algo se - em primeiro lugar - é capaz de “enxergá-lo”.    

A autoestima é um caminho a ser percorrido sozinho, ou devemos procurar apoio e ajuda da família, médicos e amigos?

No caso de pacientes que percebem, nitidamente, tendências pessoais RECORRENTES de não se sentirem “aceitos” (ou mesmo de se sentirem “rejeitados”, frequentemente “criticados”, “desvalorizados” ou “desqualificados”), sem que aspectos factuais comprovem estas sensações, há a necessidade de se procurar um psicoterapeuta. Acredito que o papel da família e dos amigos seria crucial no sentido de, principalmente, tentar conscientizar esta pessoa das dificuldades / perdas relacionais (na esfera da amizade), profissionais (dificuldades no trabalho), afetivas (relacionamentos familiares ou íntimos muito difíceis), etc, que seus problemas de estima possam estar lhe trazendo.

“Viver mais o presente, diminui a ansiedade.”

Como afirmei, acredito que esta “seria” uma situação ideal, mas não creio que seja uma tarefa fácil. Note: uma baixa capacidade de valorizar a si mesmo é, em geral, um aspecto forjado nas interações familiares e sociais da primeira infância. Desse modo, a própria FAMÍLIA pode ter “dificuldades” em reconhecer o problema, na medida em que ela mesma (a família), em geral, é “parte” importante do problema. Que fique claro: não estou falando de “culpa”! Não necessariamente a família é a culpada pela baixa-estima de um de seus componentes. No entanto, o “modus operandi” desta ou daquela família, podem - não voluntariamente - contribuir para que dificuldades de estima se cristalizem em um ou mais de seus membros.  

Um estudo divulgado nos Estados Unidos na revista "Psychological Science" revelou que repetir frases positivas como "Sou uma pessoa querida" ou "Vou ter sucesso" faz com que algumas pessoas se sintam piores em relação a si mesmas em vez de elevar a autoestima. O que o Senhor acha deste estudo?

As pessoas confundem muito o poder de aprenderem a “pensar factualmente” com o poder de procurarem pensar “positivamente”. Pessoas com dificuldades de estima, em geral, são amadas e aceitas por várias pessoas. No entanto, não se dão conta disso! Por mais que pensem "Sou uma pessoa querida" ou "Vou ter sucesso", isto não mudará este “esquema disfuncional” (como chamamos em Terapia Cognitivo-Comportamental).

O verdadeiro “poder do pensamento” é o poder que este têm de transformar, interiormente, o indivíduo. Definitivamente, não há qualquer prova científica (e duvido que um dia haja...) de que o pensamento tenha qualquer ação mecânica à distância. Isto não existe! Desse modo, permanecer pensando, repetidamente "Sou uma pessoa querida" ou "Vou ter sucesso" é inútil se a pessoa se considera, interiormente, como “não aceita”, “não amada” e sequer têm consciência desta sua tendência.

Note: uma pessoa com a estima preservada, saberá valorizar a si mesma, mais ou menos na justa medida, mesmo em situações de fracasso pessoal (seja nas esferas profissional, amorosa, etc). Saberá discriminar, com razoável acuidade, em que aspectos não atuou eficientemente, em quais foi competente, ou seja: onde “errou”, “não errou”. Caso isso não ocorra, e as perdas pessoais continuem a ocorrer, repetidamente, é necessário procurar ajuda!

Escrevemos abaixo, algumas situações práticas do dia-a-dia para que o Senhor faça uma breve análise. Comente sobre cada situação.

Alimentação - Transtorno alimentar é causado também pela falta de autoestima? Exemplo: Pessoas que não estão insatisfeitas com o peso e comem demais ou não se alimentam corretamente.                 

Pessoas que têm problemas de estima, podem ter “compulsão alimentar”, caso esta seja “sua forma” de conseguir um alívio breve (de minutos a horas) da ansiedade que suas dificuldades em “valorar a si mesma” lhe acarretam. Outras pessoas buscarão alívio desta ansiedade no uso de drogas ou no excesso de trabalho, lazer, estudo, etc. O raciocínio inverso não deve ser feito, ou seja: de que problemas de compulsão alimentar ou o uso de drogas, dedicação excessiva ao trabalho, etc, sempre estejam relacionados com dificuldades de estima. Na minha avaliação, uma das “regras de ouro”, na esfera do comportamento, é o cuidado com as generalizações.

Trabalho - Sem autoestima no trabalho. Muitas empresas contratam consultores e palestrantes para dar cursos e palestras de motivação para suas equipes. Uma palestra pode realmente ajudar a modificar a energia de uma equipe de trabalho?

Acredito que, em geral, não há resultados com estas palestras. Grande parte das pessoas que se dedicam a isto, na minha avaliação, têm pouca experiência clínica e levam um tipo de mensagem na linha do “pensamento positivo”. Uma prova disto foi o enorme sucesso editorial do livro, “O Segredo”.

Concedi entrevistas acerca deste livro em vários veículos e deixei clara minha posição a respeito, ou seja: “QUERER” atingir um objetivo é o primeiro pré-requisito para alguém atingir suas metas, mas, seguramente, não basta! Há todo um caminho a ser percorrido e este caminho é, efetivamente, “sem fim”!

Na minha avaliação, é preciso que as pessoas compreendam que a vida (em todos os seus aspectos, profissionais, afetivos, familiares, etc) não é um conjunto de metas. A vida é um processo permanente de reconstrução. É sempre um “recomeço”! A partir desta mudança de ótica, a pessoa poderá sentir-se vivenciando com mais intensidade seu “presente” (obviamente, planejando e se preparando, FLEXIVELMENTE, para metas a curto e médio prazo) o que traz, naturalmente, uma diminuição da ansiedade. Viver mais o presente, diminui a ansiedade.

Voltando à questão da MOTIVAÇÃO nas empresas, acredito que um dos maiores problemas que desmotivam pessoas, profissionalmente, é o fato das empresas ainda serem pouco permeáveis, em sua cadeia de comando, para informações que venham “de baixo para cima”. Pessoas sentem-se motivadas, quando os dados acerca do bom trabalho que estão realizando (sua dedicação, etc) chegam, precisamente, às esferas elevadas de poder, em uma empresa. Isto produz reconhecimento! Este reconhecimento FACTUAL das capacidades de alguém traz, naturalmente, incremento de auto-estima e MOTIVAÇÃO.

As cúpulas de poder do mundo corporativo ainda vivem muito no estado que denomino, “Síndrome de Rei”. Sabem muito “dos números”, mas sabem muito pouco acerca das pessoas e sua dedicação / contribuição / competência. Acerca destes aspectos das pessoas que trabalham nas empresas, a cúpula têm dados que são, muitas das vezes, “versões” e não, em realidade, “fatos”! Tenho propostas pessoais para se mudar isto, mas esta descrição fugiria aos objetivos da entrevista. 

Racismo - Saiu um estudo que revelou que pessoas que ganharam cotas em faculdades tem estima baixa e medo de sofrerem preconceito.

Não acredito que haver cotas afete a auto-estima das pessoas que teriam direito a elas. Pessoas que têm a capacidade de valorar a si mesmas preservada, não se sentirão incomodadas, nem por terem e nem por não terem direito a estas cotas. Quanto a isto gerar ou não segregação - por parte de quem não teve direito a estas cotas - trata-se de uma questão, ao meu ver, ainda “em aberto”, que (considero) não foi devidamente debatida por todos os segmentos da sociedade. 

Amor Existem pessoas que conseguem emagrecer ou ficar mais bonitas, pois passam a se cuidar melhor depois que encontram o seu grande amor. O amor também pode colaborar para a auto ou baixa estima?

Pessoas apaixonadas tendem a cuidar mais da própria aparência (pelo menos, no início do relacionamento). No entanto, há pessoas que apesar de serem extremamente amadas pelo seu parceiro/parceira, não conseguem se sentir PLENAMENTE AMADAS. Estas pessoas têm uma expectativa de não serem aceitas (“esquemas de rejeição”).

Na verdade, quando encontram-se apaixonadas, esta expectativa de “não aceitação” pode ser muito, muito amplificada nestas pessoas. Desse modo, apesar das constantes demonstrações cotidianas de amor do parceiro / parceira, um simples comentário rotineiro, por parte deste, pode ser interpretado como um sinal de rejeição por estas pessoas. Isto pode complicar bastante a relação, podendo levar, eventualmente, até mesmo ao rompimento. 

Como podemos fortalecer a autoestima em crianças e adolescentes?

Novamente, esta é uma questão “em aberto”. Não há consenso (como visto), acerca da forma através da qual as pessoas estruturam sua auto-estima. Na minha avaliação, pessoas que se sentiram amadas pelas pessoas mais significativas de suas vidas (pais, irmãos, avós, tios) tendem a ter uma auto-estima preservada. Muitas vezes o problema não está “em ser amado”, mas (para além disto) “haver manifestações claras de afeto” por parte de quem nos ama.

Hoje há, ao meu ver, uma “complexificação das relações afetivas”, a qual surgiu com a separação de muitos casais. Estas separações geraram situações as quais podem levar, por exemplo, uma criança pequena a ter que conviver, com sua mãe, o namorado dela, o pai e sua segunda esposa, irmãos de sangue, um (ou mais) meio irmão, e avós (por vezes de três ou 04 núcleos familiares diferentes), além de vários parentes agregados à estas diferentes famílias.

Nesta profusão de “modelos” (exemplos) uma criança pequena (já angustiada pela separação dos pais acrescida às necessidades de adaptação que isto gera) pode sentir-se “desimportante” ou até mesmo culpada de certas situações. Faz-se necessário um cuidado muito grande com as crianças nestas situações. Deve estar claro para elas quem as amparará e que tudo isto não ocorre por culpa delas, (além de muitos e muitos outros cuidados). Disto depende, seguramente, grande parte da estruturação da auto-estima destas crianças.

Quanto aos adolescentes, A BASE de sua auto-estima já deve - à esta época da vida - estar, devidamente, formada. No entanto, o adolescente - apesar de ser alguém que não é mais criança – está apenas começando suas “incursões” no mundo dos adultos. O acompanhamento dos pais deve ser intenso nesta época. Adolescentes com dificuldades em se valorar, podem ser muito carentes de atenção. Caso esta atenção venha de pessoas não recomendáveis (más companhias), isto pode levar à aderência destes adolescentes a vivências auto-destrutivas (drogas, promiscuidade, vandalismo, irresponsabilidade). Note: à esta época, não lidamos mais com uma criança. Mágoas e carências pregressas já podem estar muito, muito sedimentadas. Uma auto-estima bem formada, na infância, pode evitar (ao meu ver) muitos problemas futuros.

Autoria: Dr. Geraldo Possendoro

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