quinta-feira, 27 de junho de 2013

Às vezes desconfio…





"... Desconfio dos que dizem que a morte é a vida que se finda, sendo ela apenas uma passagem que dará origem a uma nova existência. Eu mesma já morri e renasci tantas vezes em uma única existência, por tantos motivos díspares, que se for enumerá-los perderei muito do tempo que ainda me resta.

Desconfio daqueles que dizem que me amam. Muitos declararam publicamente o seu amor por mim e partiram em retirada sem sequer olhar para trás, como se eu nunca tivesse existido realmente nas suas vidas. Dá para confiar?

Desconfio daqueles que dizem estar felizes, porque os que ainda estão, ainda não são felizes. Ser feliz está longe de ser a mesma coisa. Aquele que está feliz está por algum motivo externo, o que denota total vulnerabilidade; e aquele que é… Ah! Este possui a felicidade que provém da alma e ela já faz parte da sua essência íntima. Não está condicionado, sendo, portanto, a condição e a possibilidade.

Desconfio tanto, que me transformo em intolerância… Desconfio daqueles que se dizem generosos; quem é jamais faz propaganda, como se estivesse vendendo uma imagem. A verdadeira generosidade é a medida do nosso entendimento com relação às pessoas, o que não significa abrir mão dos nossos sonhos em prol de alguém, mas acreditar que esse alguém pode fazer parte deles e nos ajudar a transformá-los em realidade. O sonho é um elo forte entre a realidade e a nossa existência.

Desconfio muito daqueles que se dizem únicos e especiais no mundo, por considerá-los egoístas. Esquecem, porém, que para ser uno é necessário o todo e este só existe por causa das suas partes. E as partes são as heranças deixadas por aqueles que conviveram conosco em algum momento de nossa vida. Por isso pergunto: E aí, onde está o ser único? Ninguém se faz sozinho… Pobres egoístas!

Desconfio dos amores impossíveis, dos sonhos impossíveis e daqueles que dizem que nem tudo é possível, por considerar que na vida tudo é possível desde que haja vontade. Mas também desconfio daqueles que dizem haver possibilidade em tudo; a vida é cinqüenta por cento, o que significa que eu tenho cinqüenta por cento de chances de dar certo ou não. Neste caso há igualdade de condições e eu não posso dizer que a vida é injusta.

Desconfio do destino porque a qualquer momento posso ser surpreendida por ele. E as surpresas não são, necessariamente, agradáveis. Há surpresas boas, ruins e outras piores ainda. Mas, por outro lado, também desconfio da vida estática porque ser surpreendido pelo destino de vez em quando é bom.

Desconfio muito daqueles que dizem que gostam de mim alegando a bondade da minha alma. Pobres tolos! Não se deram ao trabalho de me conhecer! Ninguém é tão bom ou tão ruim. E eu não quero que gostem de mim por isso ou por aquilo.Quero que simplesmente gostem de mim -o que é apenas uma questão de ponto de vista. Aqueles que nos conhecem de verdade sabem reconhecer a bondade, mas não descartam o lado perverso do nosso espírito. E entendem que o ser humano é assim como a vida, cinqüenta por cento… Por isso, desconfio mais ainda dos bondosos demais, dos que sorriem demais, dos que nunca admitem ser tomados pelos sentimentos. Isso é só aparência; e há ainda os que são enganados por elas. Desconfio, sobretudo, por acreditar que os bondosos demais, os sorridentes demais e os generosos demais aos olhos dos outros são peritos em varrer toda a sujeira para debaixo do tapete. Prefiro os que choram quando têm vontade, sorriem quando têm vontade e explodem quando sentem o seu coração partido. A raiva exposta é uma das possibilidades de libertação do espírito, e quanto à estes não há engano porque não sabem camuflar as sujeiras da alma…São para mim, seres mais puros, mesmo quando estão com raiva. Quem nunca sentiu o lado perverso da alma se sobrepor a bondade em algum momento, por menor que seja que atire a primeira pedra!

Desconfio daqueles que fazem promessas por saber que nem sempre somos capazes de cumprir o que prometemos. Dificilmente dou conta de cumprir promessas e não prometo nada. Acredite em mim quem quiser!Do mesmo modo desconfio de juras de amor, de amizade e de fidelidade. Amor, amizade, fidelidade existem em si e são comprovados por meio de ações e não de palavras…

Desconfio muito dos que esquecem o passado, pensando viver plenamente o presente, sem olhar para trás. Desconfio por saber que ninguém escreve a sua história pela metade. Uma vida plena depende muito daquilo que fomos e herdamos do passado. Como viver sem lembranças? A memória do passado rejeitada hoje pode ser muito útil na construção de um novo amanhã…

Eu desconfio da verdade e da mentira, do certo e do errado, das regras… Quem segue todas as regras? Quem não burla a lei e a ordem? A única honestidade que conheço é a que tenho com relação a mim mesma e aos meus princípios. Só eu serei capaz de me amar profundamente e de não me enganar; só eu serei capaz de me respeitar acima de tudo, só eu farei o possível e o impossível para ser feliz e não me magoar, embora tenha fracassado algumas vezes. Mas quem não fracassa de vez em quando? Só eu sou em mim na minha totalidade, mas sei que não me fiz sozinha…E ainda assim, desconfio de mim. Desconfio por saber que o meu pensamento de hoje pode se tornar uma contradição amanhã. Por saber que nada é permanente e que tudo é provisório. Desengano? Talvez! Por isso aviso, desconfie de mim! Porque a desconfiança que deposito nas coisas baseia-se somente na minha experiência pessoal e, portanto, só faz sentido para mim..."

Autoria: Erica Gaião

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