sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Que assim seja...




Que eu seja como a que tece o pano
na floresta, profundamente escondida.
Que eu possa fazer o meu trabalho sem interrupção.
Que eu seja uma exilada, se este é o sacrifício.
Que eu conheça a procissão sazonada do meu espírito e do meu corpo, 
e possa celebrar os quartos em cruz,
solstícios e equinócios.
Que cada Lua Cheia me encontre a olhar para cima,
nas árvores desenhadas no céu luminoso.
Que eu possa acariciar flores selvagens, cobri-las com as mãos.
Que eu possa liberta-las, sem apanhar nenhuma,
para viver em abundancia.
Que meus amigos sejam da espécie que ama o silêncio.
Que sejamos inocentes e despretensiosos.
Que eu seja capaz de gratidão. Que eu saiba
ter recebido a alegria, como o leite materno.
Que eu saiba isso como o meu gato, no sangue e nos ossos.
Que eu fale a verdade sobre a alegria e a dor,
em canções que soem como o aroma do alecrim,
como todo o dia e na antiguidade, erva forte da cozinha.
Que eu não me incline a auto-intefridade e a auto-piedade.
Que eu possa me aproximar dos altos trabalhos da terra e dos círculos de
pedra,como raposa ou mariposa,
e não perturbar o lugar mais que isso.
Que meu olhar seja direto e minha mão firme.
Que minha porta se abra aqueles que habitam
fora da riqueza, da fama e do privilégio.
Que os que jamais andaram descalços não encontrem o
caminho que chega a minha porta.
Que se percam na jornada labiríntica.
Que eles voltem.
Que eu me sente ao lado do fogo no inverno
e veja as chamas brilhando para o que vier,
e nunca tenha necessidade de advertir ou aconselhar,
sem que me pecam.
Que eu possa ter um simples banco de madeira, com verdadeiro regozijo.
Que o lugar onde habito seja como uma floresta.
Que haja caminhos e veredas para as cavernas e poços
e árvores e flores, animais e pássaros,
todos conhecidos e por mim reverenciados com amor.
Que minha existência mude o mundo não mais nem menos 
do que o soprar do vento,
ou o orgulhoso crescer das árvores.
Por isso, eu jogo fora a minha roupa.
Que eu possa conservar a fé, sempre!
Que jamais encontre desculpas para o oportunismo.
Que eu saiba que não tenho opção, e assim mesmo
escolha como a cantiga é feita, em alegria e e com amor.
Que eu faça a mesma escolha todos os dias e de novo.
Quando falhar, que eu me conceda o perdão.
Que eu dance nua, sem medo de enfrentar meu próprio reflexo.

(A.D.)

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