terça-feira, 15 de março de 2011

O caminho...



Não deves recusar o esforço, porque ele é um caminho...
Num lugar que terás de descobrir, que fica sempre alto e longe...
Existe para ti uma lagoa meio escavada na rocha, com relva muito
verde nas margens, onde podes ouvir o canto alegre de pássaros calmos.
Encontram-se lá os que amas, fortes e generosos. Sorridentes.
Há sol e também a sombra de altas árvores.
Por cima, apenas o céu, à distância de um último salto.

Não é um destino inevitável, mas um lugar onde és esperada e que podes,
ou não, alcançar,  conforme a medida do teu desejo.
Só quando lá chegares terás alcançado toda a tua envergadura.
Só lá te encontrarás contigo mesma.
Existes para chegar a esse lago.
Os teus olhos são capazes de pousar nas suas águas limpas,
que refletem o céu que lhes está por cima.

Não se pode querer mal aos caminhos que conduzem a lugares assim, 

embora sejam escarpados e se torne impossível evitar ferimentos 
e cansaços quando se segue por eles. Se o teu desejo de chegar for grande, 
nenhum esforço te parecerá demasiado penoso. E, embora vás a caminho, 
terás sempre contigo qualquer coisa que é já de ter chegado.
Talvez uma certa forma de olhar, resultante daquela luz que se acende 

por dentro quando nos pomos a caminho dispostos a tudo o que aparecer.

E nem haverá problema se a morte te encontrar assim, ainda no gesto de subir...
Já tens em ti o teu lago, na imagem dele que te fez partir.
Não deves recusar a dor, porque ela constrói-te, marca-te os limites
e faz-te crescer por dentro dos teus muros.
Sem ela, não passarias de um projeto da mulher que hás de ser.

Ela edifica-te os músculos, a cabeça e o coração... não existe outra maneira
de chegares a ser aquilo que deves vir a ser.
Se não sofresses não haveria ninguém dentro de ti.
No cumprimento sério dos teus deveres, encontrarás

a dor na forma de esforço e de cansaço.
Mas pode muito bem ser que, tarde ou cedo, ela te procure
sem disfarces e te faça chorar ou gemer.
É frequente que ela se apresente assim, numa nudez que parece cruel
faz lembrar facas ou agulhas.

Nem por isso te deves assustar ou desistir.
Quando te parecer que tudo está perdido, sorri, se puderes.
É que estão a oferecer-te um degrau que te deixará
incomparavelmente mais acima no caminho.
Deves ver nisso o sinal de que, por qualquer razão,
é tempo de andares mais depressa.
Sobretudo, não te queixes.

Há assim metamorfoses que parecem aniquilar, mas não passam
de formas de fazer surgir a borboleta.
Não te queixes, porque receberás umas asas e cores novas.
O teu lago, de onde de tão perto se pode olhar o céu, tem um preço...
Que tu saberás dar e não é tão grande assim!!! 



Autoria: Paulo Geraldo

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